A dança da inovação corporativa - MAZE - Decoding Impact

A dança da inovação corporativa

Há uns anos atrás contaram-me uma história sobre inovação e o poder da inclusão e da diversidade: uma famosa marca de cerâmicas queria explorar pela primeira vez o mercado da Europa de Leste. Chamaram os melhores designers, jovens, arrojados, para desenvolver o novo portfólio local da marca. Saíram daí coisas incríveis, minimalistas, conceptuais. Tudo lindo, mas ninguém quis comprar.

Contrataram novos designers, estes intrigados e mais curiosos, que descobriram que o vidro soprado colorido era uma grande tendência naquele mercado, mas infelizmente já ninguém na empresa dominava a técnica. Decide-se pedir ajuda ao Sr. Carlos – chamemos-lhe assim – colaborador durante dezenas de anos da fábrica, mestre na técnica do vidro soprado pintado, agora reformado, – que vem salvar o dia, e dá formação intensa à equipa destacada para a tarefa, passando-lhes a técnica que toda a vida dominou.

Com o novo catálogo e uma nova linha de produção, o Sr. Carlos sente-se realizado e útil, a equipa está feliz e motivada, os clientes satisfeitos e vendas a disparar. Quero muito acreditar nesta história, porque é uma inspiração para aquela que vem a seguir.

Todas as semanas na MAZE cruzamo-nos com o desafio da inovação em contexto corporativo. Estudamos e contactamos milhares de startups porque acreditamos que a solução para crescer e inovar muitas vezes vem de fora, em formatos ágeis, disruptivos mas com pouco risco. E vem, com tanto esforço como o impacto gerado.

Ao mesmo tempo, defendemos que a mudança tem de vir de dentro, e por isso motivamos equipas para serem catalisadoras de mudança, dando-lhes as ferramentas para inovarem nas suas funções e resolverem problemas profundos.

Contudo, no caminho, muita gente fica para trás. Pessoas que não acompanharam planos formativos arrojados, que passaram ao lado de pós-graduações impronunciáveis e que não ouvem podcasts sobre crescimento e estratégia ao dobro da velocidade a que foi gravado. Profissionais que por motivos vários – personalidade, falta de investimento, ou só a vida a acontecer – ficaram para trás.

A inovação corporativa não tem muito que enganar – meia dúzia de formatos com melhores ou piores resultados, desde equipas de inovação satélite, laboratórios de experimentação, fundos para investir e acelerar em startups da área, programas de geração de ideias internas e externas, etc.

Para todos eles, o perfil mais apetecível de inovador é também fácil de identificar – gente nova, com garra e genica, persistentes e com dificuldade em desistir perante cenários difíceis, dispostos a trabalhar muito e sem medo de cair e falhar. Fácil de prever é também a dificuldade em reter estas pessoas – inquietas perante a força que o histórico e o legado podem ter na inovação corporativa. Sedentas de propósito e da visibilidade do impacto do seu esforço e trabalho. Voláteis.

E enquanto estes disruptores vão e vêm, aqueles que vão ficando para trás observam, resistem e preparam-se para o próximo grupo que promete vir mudar o (seu) mundo.

Inovação é uma mistura de várias coisas, entre elas seguramente a energia e o pensamento fora da caixa, mas não só. E o contexto, a experiência e o conhecimento? Não têm também um papel na disrupção? Não podem atalhar caminho quando usados em conjunto com essa genica impulsionadora de mudança? E se o que está para trás for também catalisador de inovação? Não haverá espaço para quem tem na memória, como tudo era no início, sem a burocracia e as estruturas formais que o tempo criou? Carregados de conhecimento de mercado que fica por explorar. Desmotivados por não se sentirem valorizados. Perdidos sobre como voltarem a tornar-se relevantes.

As grandes tecnológicas são boas inspirações, com modelos de inovação sustentada, sólida e duradoura. Neles surgem muitas vezes equipas híbridas – os disruptores que trazem novas formas de trabalhar, contextos diferentes e desafiam a realidade, a trabalhar lado a lado com equipas históricas, com um enorme conhecimento do produto, do mercado e dos seus clientes. O que seria de uma Microsoft, uma Apple ou até mesmo uma OutSystems sem esses guardiões do conhecimento que não está registado em lado nenhum?

Verna Myers – especialista no tópico da transformação cultural – diz que “Diversidade é ser convidado para a festa. Inclusão é ser convidado para dançar”. Há tanta beleza nesta simplicidade. Conseguem ver também a festa dos vossos contextos corporativos cheia de gente tão diferente? Agora é mesmo só estender a mão àqueles que chegaram primeiro mas estão agora escondidos no canto da sala com receio de já não pertencerem a sítio nenhum.

Ângela Silva, Head of Innovation da MAZE

Image by Kendall Ruth, available on Unsplash.

A nossa newsletter mensal é escrita pela Cristina, para si, com amor.
Seja o primeiro a receber notícias, tendências de impacto e novidades na equipa.